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14 fevereiro, 2007

Quentinha

Tocou a minha campainha uma vizinha, daquelas que nunca aparece a não ser para pedir algum favor. Ao invés disso, bem que poderiam aparecer de vez em quando ofertas de moedas de ouro, oferendas de virgens, coisas simples, mas importantes, que a falta de humanidade das pessoas eliminou da civilização.

— Oi...
— Sim?
— É que a minha vizinha tá passando mal, eu já liguei pro SAMU 192 e eles disseram que não vinham buscar, ela não pode beber, usa remédio controlado...
— Pera que eu vou te dizer o hospital pra onde você vai levá-la.
— Você não vem nem dar uma olhada nela?

Tive que ir. A mulher era horrível estava absolutamente chapada; me ocorreu imaginar como sobreviveram milhões de bêbados nos milênios da humanidade sem o SAMU 192. A mulher que estava inconsciente prontamente acordou (eu ainda acho que os bêbados têm um sexto sentido para a presença de médicos e afins, ou talvez seja a iminência de uma injeção). Começou a falar as baboseiras que primeiro vieram à mente, nomeou sua família até a décima quinta geração antepassada e depois foi me preparar um prato de caruru com vatapá. Eu dispensei as vizinhas desesperadas e comi a refeição que ela me ofereceu, não foi nem uma questão de educação: eu estava faminto mesmo.

Gostei tanto que voltei no outro dia para encomendar o almoço, já que ela fornecia quentinhas.

— Você fornece almoço, não é?
— É. Você é o médico?
— Sou, sim.
— Não vou cobrar de você, muito obrigado por ter vindo ontem!
— Cobre! Eu nem queria vir aqui!
— (Risos) Tá certo. Você come tudo, não é?
— Como!

Ela deu um sorrisinho maroto e eu imediatamente me arrependi de ter feito uma declaração de caráter tão indiscriminadamente generalista. Corrigi no reflexo, mas não sem me arrepender mais ainda:

— Quer dizer, você, não.

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